Maranhão institui 29 de março como Dia Estadual em Memória das Vítimas da Covid-19

Data estabelecida por lei estadual presta tributo aos falecidos, celebra sobreviventes e reconhece o sacrifício de profissionais da linha de frente

Neste domingo, 29 de março, o Maranhão observa o Dia Estadual em Memória das Vítimas da Covid-19, marco instituído pela Lei nº 11.918/2023. A efeméride propõe um exercício de reflexão sobre os impactos da maior crise sanitária do século, que resultou em mais de 11 mil óbitos no estado.

Para além das estatísticas, a pandemia é recordada pelas trajetórias interrompidas e pelo luto de milhares de famílias maranhenses. A homenagem estende-se também àqueles que superaram a enfermidade e aos profissionais de saúde que atuaram diretamente no combate ao vírus.

A pandemia foi a guerra da minha geração, um embate contra um inimigo invisível que vitimou quase um milhão de brasileiros. É imperativo recordar os que partiram, mas também honrar os sobreviventes e os que lutaram para preservar vidas”, pontua Carlos Lula.

Entre os relatos de resistência está o da enfermeira Adriana Nunes, de 47 anos. Atuando no Hospital de Cuidados Intensivos (HCI), ela vivenciou a crise sob dois prismas: o profissional e o pessoal, ao perder a mãe, Maria do Espírito Santo, de 64 anos, nos meses iniciais da emergência sanitária.

Minha mãe recebeu toda a assistência disponível, mas não resistiu. O sofrimento pela perda permanece; ficou um vazio que não se preenche”, desabafa a enfermeira.

Mesmo diante da perda pessoal, Adriana manteve-se no front de atendimento. “Foi um cenário de guerra. Saíamos exaustos, testemunhando pacientes falecerem entre um plantão e outro, em meio ao desespero das famílias. O desgaste emocional foi imenso, intensificado pelo luto familiar”, relata. Para ela, a criação da data é um gesto fundamental de reconhecimento e respeito às vítimas.

A aposentada Andrelina Leandra Rodrigues, de 65 anos, também carrega memórias nítidas do período. Internada em 2021 com complicações pulmonares, ela enfrentou dez dias de incerteza antes de receber alta. “Houve muito medo, pois eu compreendia os riscos. Mas recebi o cuidado necessário e venci”, recorda, enfatizando que a data é crucial para que o período e os envolvidos não caiam no esquecimento.

A pandemia também destacou a relevância das políticas públicas de saúde. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Maranhão registrou a menor taxa de mortalidade por Covid-19 do Brasil durante a crise.

O relatório aponta que, caso a média nacional seguisse os índices maranhenses, mais de 300 mil vidas poderiam ter sido preservadas no país. O documento atribui o desempenho à governança estadual e à implementação de 487 medidas emergenciais, incluindo a expansão de leitos e a interiorização da rede hospitalar.

Carlos Lula, que à época geria a Secretaria de Estado da Saúde e presidia o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), relembra a dureza do cotidiano hospitalar.

“Visitar UTIs e perceber que, no dia seguinte, aquelas pessoas já não estavam lá foi o maior desafio”, afirma. Ele exalta ainda a dedicação do “exército” de profissionais que arriscaram a própria segurança pelo bem comum, o que, para ele, ratificou a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ao consolidar o 29 de março como um marco oficial, o Maranhão estabelece um período de reflexão coletiva sobre as transformações sociais impostas pela pandemia, reafirmando o valor da ciência, da memória e da vida.

 

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