'As palavras nos tornam eternos', diz Sarney sobre trajetória literária
Ex-presidente falou sobre infância no Maranhão, criação literária e a convivência com nomes da literatura latino-americana.
O ex-presidente da República e membro da Academia Brasileira de Letras, José Sarney, falou sobre a própria trajetória literária durante entrevista ao podcast Redemoinhos, do Imirante, em uma conversa sobre criação artística, memória e a relação entre política e literatura.
Durante a entrevista, o Sarney 'escritor' afirmou que a escrita é uma forma de permanência. “As palavras nos tornam eternos”, disse.
Ao longo da conversa, o autor comentou a influência da infância na Baixada Maranhense, o processo de construção de romances e a convivência com escritores que marcaram a literatura mundial.
Referências e início na literatura
Natural de Pinheiro, Sarney relatou como as vivências na Baixada Maranhense fundamentaram sua estética literária. Ele também relembrou a participação no movimento neomodernista no Maranhão ao lado de nomes como Bandeira Tribuzi.
"Pinheiro tem a importância do meu nascimento e da saga da minha família. Minhas recordações são daquele campo grande, belo, com o verde que se cobria de rosas amarelas. A infância marca a gente de uma maneira tal que ela nos acompanha durante a vida inteira. Na minha poesia, as memórias da Baixada são definitivas: são memórias visões de cinzas e sonhos", disse.
Sobre o cenário literário local da época, o autor destacou a ruptura com padrões tradicionais:
"Nós iniciamos aqui um movimento para desmontar as fórmulas do academicismo e do gongorismo. O Tribuzi, quando chegou de Portugal, trouxe Fernando Pessoa na bagagem e deu uma visão muito mais larga ao nosso grupo", comentou.
Processo criativo e o realismo maravilhoso
O José Sarney escritor explicou a técnica utilizada em livros como O Dono do Mar e Saraminda. Segundo ele, sua obra se baseia no "Realismo Maravilhoso", que utiliza elementos da realidade local sob uma perspectiva ficcional.
"Passei 10 anos coletando histórias. Eu ia para as pescarias com os pescadores de madrugada, me encantava com os relatos sobre os 'piocos' - monstros que aparecem na água. Eu queria fixar essa emoção através das palavras", afirmou. "No realismo maravilhoso, a gente pega a realidade e constrói uma ficção que transgride as leis físicas. Em ‘O Dono do Mar’, criei um personagem que flutua nas águas por 200 anos. Isso é impossível na física, mas é uma verdade absoluta na ficção", disse.
Convivência com autores internacionais
A entrevista também abordou a relação de Sarney com outros escritores de expressão mundial. O autor relembrou um contato frequente com o colombiano Gabriel García Márquez e comentou sobre a personalidade do português José Saramago.
"Gabo me ligou para saber a datação exata da cerâmica de Marajó para um texto que redigia. Eu disse que não sabia a data técnica, mas brinquei: 'Garcia, você dê a data que quiser, que vai valer, porque com a sua autoridade literária, a data que você escrever passará a ser a verdadeira'", comentou o ex-presidente.
Sobre Saramago, Sarney pontuou: "era mais esquisito, meio grosso, vamos dizer assim. Ele não era muito dado a estabelecer muita intimidade, era muito fechado. O contraponto era a Pilar del Rio, sua mulher, muito comunicativa e brilhante", pontuou.
Relação entre literatura e política
Questionado sobre a conciliação entre a carreira literária e a vida pública, o autor afirmou que as atividades ocuparam espaços distintos, mas que a política reduziu seu tempo dedicado à escrita.
"Minha vida tem duas vertentes. Eu sempre tive uma vocação de liderança, desde o Liceu, mas a política me prejudicou muito a área da criação literária. Eu nunca deixei a política entrar na literatura e nunca deixei a literatura entrar na política. Eu não passei um dia sem que eu não tivesse um convite de noivado para a literatura. Tinha vontade de me casar com ela, mas não casei. Casei com a política", afirmou.
Aos 96 anos, o José Sarney escritor mantém a produção regular de artigos e crônicas. Ao fim da entrevista, ele recomendou a leitura de clássicos como Dom Quixote e Pedro Páramo, definindo o ato de escrever como uma forma de "vencer o sentimento trágico da vida".
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