De beneficiário do Bolsa Família a dono de empresa: entenda o desvio de subsídios da Expresso Rei de França
O inquérito foi determinado pelo juiz Douglas de Melo Martins, da Vara de Interesses Difusos e Coletivos, após o surgimento de indícios de práticas criminosas
A Expresso Rei de França, operadora do transporte público em São Luís vinculada ao Consórcio Via SL, encontra-se atualmente sob investigação judicial que apura desvio de recursos públicos, fraudes administrativas e a utilização de sócios ocultos. O inquérito foi determinado pelo juiz Douglas de Melo Martins, da Vara de Interesses Difusos e Coletivos, após o surgimento de indícios de práticas criminosas durante audiências destinadas a debater a crise do transporte coletivo na capital maranhense.
Documentos reunidos na investigação revelam um padrão financeiro suspeito, no qual a empresa efetuava pagamentos de aluguéis e faturas de cartões de crédito pessoais nos mesmos dias em que recebia subsídios do poder público. Essa dinâmica indica que as verbas destinadas à manutenção do serviço essencial estavam sendo desviadas para cobrir despesas particulares da gestão.
Enquanto o capital era drenado, os cerca de 600 funcionários da companhia enfrentavam o atraso sistemático de salários, benefícios e planos de saúde, culminando em uma série de greves e paralisações no encerramento de 2024.
A apuração sobre o Sindicato das Empresas de Transportes (SET) reforça o cenário de irregularidades, expondo a transferência de mais de R$ 3 milhões para a conta da Expresso Rei de França. Em vez de priorizar a regularização da folha de pagamento, os valores foram rapidamente transferidos para quitar dívidas com a Goldcoltan, empresa vinculada ao empresário Pedro Paulo Pinheiro Ferreira, além de outras despesas de consumo sem relação com a operação do transporte.
O ponto mais sensível da investigação reside no controle societário da transportadora. Embora formalmente registrada em nome de Willame Alves dos Santos — que figurava como beneficiário do Bolsa Família até o início de 2025 —, a empresa teria recebido aportes de R$ 3 milhões em cotas transferidas por Débora Piorski Ferreira.
No entanto, depoimentos de funcionários apontam que o controle real é exercido por Pedro Paulo Pinheiro Ferreira, pai de Débora e empresário do setor de mineração em recuperação judicial. A prática de ocultação de sócio, conforme ressaltado pelo magistrado, pode configurar crime e agrava a situação jurídica dos envolvidos.
Este caso integra uma ofensiva judicial mais ampla contra a crise no setor, que já resultou no bloqueio de até R$ 50 milhões em bens de empresas e empresários ligados ao Consórcio Via SL. Com a autorização para a desconsideração da personalidade jurídica, a Justiça busca atingir o patrimônio pessoal dos gestores para sanar as dívidas. No momento, a Expresso Rei de França tenta restabelecer a normalidade, informando que 30 ônibus voltaram a circular em 15 bairros enquanto a frota remanescente passa por manutenção.
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