Avanço de voçorocas força saída de centenas de famílias em Buriticupu

Enquanto crateras avançam e casas são destruídas, famílias afetadas aguardam a entrega de moradias prometidas em conjunto habitacional que segue com obras paralisadas.

Nos últimos 20 anos, cerca de 360 famílias tiveram que deixar suas casas devido ao avanço das voçorocas que cortam bairros de Buriticupu, município localizado a cerca de 415 km de São Luís. As grandes crateras, que se formam por processos de erosão do solo, vêm se expandindo e atingindo áreas urbanas da cidade, destruindo moradias e alterando a rotina de moradores.

Parte dessas famílias deveria ter sido realocada em residências do conjunto habitacional Nova Buriti, construído com recursos federais justamente para atender pessoas que perderam suas casas. No entanto, as moradias nunca foram entregues.

Ao todo, 83 casas já foram destruídas ou engolidas pelas crateras. Diante da perda das moradias, algumas famílias deixaram o município em busca de abrigo em outras cidades. Outras passaram a viver com parentes ou tiveram que arcar com aluguel por conta própria.

Atualmente, aproximadamente 90 famílias recebem aluguel social pago pela Prefeitura de Buriticupu.

Recursos liberados e obras atrasadas

Em 2023, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional liberou R$ 9.733.169,07 em recursos federais para ações relacionadas ao problema das voçorocas no município. Desse total, R$ 7.854.243,24 foram destinados à construção de 89 casas no conjunto Nova Buriti, projeto voltado às famílias que perderam as moradias por causa das crateras que avançam sobre áreas urbanas.

O prazo previsto para a entrega das unidades habitacionais terminou em julho de 2024, mas nenhuma casa foi entregue até o momento.

No local, 27 residências estão prontas há quase um ano, porém já apresentam sinais de deterioração, como infiltrações nas paredes e no forro, mesmo sem nunca terem sido ocupadas. Outras 33 unidades seguem em fase de construção, mas as obras estão paralisadas.

Além das casas, uma escola também começou a ser construída dentro do conjunto habitacional. A obra, no entanto, está parada. Sem cobertura adequada, a estrutura vem sendo atingida pela chuva, e a água se acumula em áreas que deveriam funcionar como salas de aula.

Preocupação com a proximidade das crateras

Outro fator que preocupa moradores e famílias que aguardam reassentamento é a localização do conjunto Nova Buriti. Segundo Isaías Cardoso Aguiar, presidente da Associação de Áreas Atingidas por Voçorocas — entidade criada em 2021 para representar moradores afetados — o residencial está a cerca de 600 metros, em linha reta, de crateras que se formaram atrás de outro conjunto habitacional da cidade, o Eco Buriti.

O Residencial Eco Buriti foi construído dentro de programas de habitação popular e não foi criado exclusivamente para atender vítimas das voçorocas, como no caso do Nova Buriti. No entanto, ao longo dos anos, algumas famílias removidas de áreas de risco acabaram sendo reassentadas no local.

Com o passar do tempo, novas voçorocas começaram a se abrir na região localizada atrás do conjunto, aumentando a preocupação dos moradores.

Em 2025, a Prefeitura de Buriticupu iniciou uma obra de contenção das crateras no fundo do residencial. Segundo Isaías Cardoso, porém, parte do material utilizado na intervenção foi levado pela enxurrada pouco tempo depois do início dos trabalhos.

Atraso no aluguel social dificulta moradia

Outro problema enfrentado por algumas famílias afetadas é o atraso no pagamento do aluguel social, benefício no valor de R$ 500 pago pelo município para quem perdeu a casa devido às erosões.

De acordo com moradores, a demora no repasse tem dificultado a busca por moradia.

“O aluguel social é de R$ 500, mas, como atrasa muito, muitos proprietários não querem alugar para quem recebe esse benefício. Quando a pessoa vai com a ordem da prefeitura para alugar uma casa, perguntam se é para a prefeitura, porque sabem que demora para pagar”, explicou Isaías Cardoso.

Moradores relatam sensação de abandono

Para Jeferson dos Santos, universitário e um dos moradores afetados pelas erosões, a falta de respostas efetivas do poder público gera uma sensação de abandono entre as famílias que vivem a situação.

“A gente se sente incapacitado. A gente sente no corpo a negligência do serviço público. Minha mãe já procurou muitas vezes o município, advogado, secretarias e ministérios, e não consegue resolver nada. Ou é burocracia demais ou é descaso”, afirmou.

Enquanto aguardam a conclusão das obras prometidas e medidas mais efetivas para conter o avanço das voçorocas, muitas famílias seguem vivendo em situação de incerteza, sem previsão de retorno a uma moradia definitiva.

Imirante.com